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DIREITA E ESQUERDA: UMA FICÇÃO


Nada é mais ambíguo do que a política. No seu mundo, as palavras não coincidem com as idéias, nem a intenção com a realização. Em face disso, é importante analisar se a notória contraposição entre ESQUERDA e DIREITA subsiste na prática política tal como se declara em tese. Nos programas partidários, enquanto manifestação de propósito, direita é uma coisa e esquerda é outra. Acontece, porém, que na esfera ideológica, anteriormente a prática política, tudo não passa de abstração.

Na realidade, coisa é diferente. Enquanto a vida política mantém-se estável é possível que seus autores guardem certa coerência entre o prometido e o executado. Todavia, a vida é dinâmica e apresenta situações duvidosas e conflitivas, ocasião em que os atores da política optam pelos interesses do momento, sobretudo em se tratando de vantagens pessoais. Com efeito, nas situações de crise e abalos, é comum que os papeis se invertam, a esquerda agindo como direita e vice-versa, de modo que as forças, antes opostas, da direita e da esquerda se unem em um objetivo comum. Não é difícil constatar o vira-casaca da esquerda para direita na história (Mitterrand na França, Felipe González na Espanha, Luiz Inácio Lula da Silva na política econômica brasileira).

Assim sendo, não é demais concluir que direita e esquerda representam apenas identidades programáticas variáveis e não identidades definitivas e irrenunciáveis. A rigor, na urgência da decisão inadiável, o discurso é substituído e, muitas vezes, absolutamente contrário às promessas eleitorais. Pode-se até dizer que nas horas extremas os extremismos se acabam e os antigos desafetos se abraçam e se confundem.

Conseqüentemente, a política é uma prática indissociável da boa oportunidade, ou seja, uma atividade de mera oportunidade. Destarte, como dizia um grande cientista político “a política é conduzida menos pela pressão das idéias puras do que pela pressão dos fatos consumados, ‘a chamada força das coisas”’. Nessa linha de raciocínio, pode ser comparada a uma correnteza de água, que abre caminho derrubando bloqueios de menor resistência, situados à direita, à esquerda ou no centro. Quem for fraco que se quebre!

Ademais, a ação política exige, às vezes, decisões rápidas e fulminantes e em tais circunstâncias não há espaço para divagações doutrinárias.

Enfim, a atividade política é essencialmente dinâmica, não permitindo situações engessadas, como direita, esquerda, e principalmente centro. A realidade unifica o que na abstração se separa. Esquerda, direita e centro são fantasmas inexistentes que estagnam o desempenham da vida política em sua capacidade de solução e em sua dinâmica criadora.

EDILSON SANTANA
PROMOTOR DE JUSTIÇA