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A VINGANÇA A LUZ DO EVANGELHO

(*) José Wilson Furtado

 

Vingança

Infligir punição em represália por ferimentos ou ofensas causadas; ação retributiva. A palavra grega ek·di·ké·o, traduzida "vingar", significa literalmente "de justiça", sugerindo que a ação representa justiça obtida. Conforme empregado na Bíblia, o termo geralmente se aplica à retribuição da parte de Deus, a favor da justiça, mas pode também referir-se a alguém executar aquilo que reputa justo, ou pagar na mesma moeda para a sua própria satisfação.

 

Vingador do sangue

No hebraico, esta expressão é go·´él had·dám. A palavra hebraica go ·´ él (que tem sido aplicada ao vingador do sangue) é um particípio de ga ·´ ál, que significa "recuperar; reivindicar; comprar de volta; resgatar; remir". (Êx 15:13; Sal 69:18; Le 25:25; Is 43:1; Je 31:11) Na lei dos hebreus, o termo aplicava-se ao parente masculino mais próximo, que tinha a obrigação de vingar o sangue daquele que fora morto. (Núm 35:19) O termo go ·´ él designava também um parente com o direito de comprar de volta (ou remir). - Le 25:48, 49; Ru 2:20 n; veja RESGATAR, RESGATADOR.

Vingar o sangue tinha por base o mandado a respeito da santidade do sangue e da vida humana, declarado a Noé, em que Jeová disse: "Exigirei de volta vosso sangue das vossas almas . . . da mão de cada um que é seu irmão exigirei de volta a alma do homem. Quem derramar o sangue do homem, pelo homem será derramado o seu próprio sangue, pois à imagem de Deus fez ele o homem." (Gên 9:5, 6) O homicida deliberado devia ser morto pelo "vingador do sangue", e não se devia aceitar nenhum resgate por tal assassino. - Núm 35:19-21, 31.

Jeová cuidará de que o sangue inocente de todos os seus servos fiéis seja vingado no devido tempo. - De 32:43; Re 6:9-11.

As leis justas de Jeová faziam nítida distinção entre o homicídio deliberado e o acidental. Para este último caso, proveram-se amorosamente cidades de refúgio, a fim de proteger dos vingadores do sangue os homicidas acidentais. (Núm 35:6-29; De 19:2-13; Jos 20:2-9) Também, estabeleceram-se tribunais de justiça para julgar os casos que envolviam questões de culpa de sangue. - De 17:8, 9; 2Cr 19:10.

 

 

É errado vingar-se?

Numa rodovia dos Estados Unidos, um carro demorou em abrir caminho para outro passar. Em retaliação, o motorista do carro de trás atirou no veículo que o irritara, matando um passageiro inocente.

Certa moça perdera para outra o papel que faria numa apresentação teatral na escola. Ela desforrou-se, dizendo ao namorado da moça que esta estava saindo com um rapaz de outra escola. Conseguiu assim arruinar o relacionamento da moça com o namorado.

MUITOS se sentem justificados a retaliar, quando se julgam prejudicados. De uma maneira ou de outra, seguem o lema: "Não leve desaforo para casa." Hoje em dia, o amor ao próximo está em baixa, e o espírito de vingança em alta. - Mateus 24:12.

No entanto, como encara a vingança? Se acredita na Bíblia, talvez ache que, em princípio, é errado vingar-se. Mas, pelo fato de vivermos num mundo ímpio, talvez ache que o perdão, que é o oposto da vingança, não raro é irrealístico. Como reagiria se fosse defraudado ou agredido num assalto? Torna-se vingativo se alguém o desconsidera ou fala mal a seu respeito? É vingativo ou é perdoador?

A Atitude Vingativa Magoa

Naturalmente, há vários graus de ofensa. Mas a maioria das pessoas que desejam vingar-se de alguém não foi agredida num assalto nem atacada criminosamente. As "ofensas" mencionadas no início deste artigo eram um tanto insignificantes, embora assumissem grandes proporções na mente daqueles que decidiram acertar as contas.

A Bíblia diz que não devemos cultivar atitude vingativa. Provérbios 24:29 aconselha: "Não digas: "Assim como ele me fez, assim vou fazer a ele."" Por que não? Primeiro, tal atitude é emocional e fisicamente prejudicial. Pensamentos vingativos tiram a paz mental e impedem o raciocínio salutar. Considere a seguinte notícia: "Dois fazendeiros que atiravam de suas caminhonetas mataram-se num estacionamento, pondo fim a uma rixa de 40 anos, que começou quando eram crianças." Imagine só! Os pensamentos desses dois homens foram a vida inteira envenenados por um espírito rancoroso e vingativo! - Provérbios 14:29, 30.

Outro motivo para não se cultivar um espírito vingativo é que as pessoas que erram - mesmo aquelas que cometem erros graves - podem mudar. O apóstolo Paulo, por exemplo, certa vez "aprovou o assassinato" do discípulo Estêvão e "respirava ameaça e assassínio contra os discípulos do Senhor". Mas ele mudou. Anos mais tarde, o apóstolo Pedro - cuja vida estivera em perigo às mãos de Paulo naquele período anterior - chamou-o de "nosso amado irmão Paulo". (Atos 8:1; 9:1; 2 Pedro 3:15) Os cristãos podiam ter tentado vingar-se de Paulo, especialmente quando ele estava esperando, cego, em Damasco. (Atos 9:3-15) Que erro trágico teria sido!

Portanto, Paulo bem podia aconselhar, em Romanos 12:20: "Se o teu inimigo tiver fome, alimenta-o; se ele tiver sede, dá-lhe algo para beber." Por quê? Porque, se nos vingamos de um inimigo, tornamo-lo obstinado em sua atitude e intensificamos a inimizade. Mas, se fazemos o bem a alguém que nos ofende ou magoa, podemos amainar sua atitude e transformar um ex-inimigo em amigo.

Reconhecermos nossas próprias fraquezas também nos ajuda a superar a amargura que leva ao desejo de vingança. O salmista perguntou: "Se vigiasses os erros, ó Jah, ó Jeová, quem poderia ficar de pé?" (Salmo 130:3) Todos nós já magoamos ou ofendemos outras pessoas. Não ficamos alegres caso eles não tenham procurado acertar as contas? Assim, não devíamos nós agir com similar comedimento? Jesus aconselhou: "Todas as coisas, portanto, que quereis que os homens vos façam, vós também tendes de fazer do mesmo modo a eles." - Mateus 7:12.

É verdade que a Bíblia diz: "Odiai o que é mau." (Salmo 97:10; Amós 5:15) Mas ela não nos manda odiar as pessoas que fazem o que é mau. De fato, Jesus nos ordenou: "Continuai a amar os vossos inimigos e a orar pelos que vos perseguem." (Mateus 5:44) Se pagamos dano com dano, imitamos o espírito daquele que faz o que é mau. O antigo provérbio diz: "Não digas: "Vou retribuir o mal!" Espera em Jeová, e ele te salvará." (Provérbios 20:22) Que atitude sábia! Quão melhor é que nos mostremos vencedores, resistindo à tentação de imitar aqueles que fazem o que é mau. - João 16:33; Romanos 12:17, 21.

Punição - Às Mãos de Quem?

É claro que certos atos são mais graves do que afrontas ou mágoas pessoais. Que dizer se somos vítimas de um crime? Naturalmente, sentimos que, a bem da justiça, algo deveria ser feito. Mas o quê? Em algumas sociedades era comum tratar de certos assuntos em base pessoal e vingar-se. Mas tais sociedades não raro terminavam divididas pelo espírito de vingança. Hoje, nem as leis de Deus, nem, na maioria dos casos, as leis do homem, permitem que as pessoas se vinguem de crimes por conta própria, e isto por bons motivos. Tal violência pessoal só gera mais violência.

Deve, então, a vítima de um crime conformar-se e passivamente aceitar a injustiça? Não necessariamente. Quando nossa pessoa ou propriedade é violada, há autoridades às quais recorrer. Pode-se chamar a polícia. No trabalho, há o supervisor. Na escola, pode-se falar com o diretor. Este é um dos motivos por que eles ocupam tais cargos: defender a justiça. A Bíblia nos informa que as autoridades governamentais são "ministros de Deus, vingadores para expressar furor para com os que praticam o que é mau". (Romanos 13:4) A justiça exige que o governo exerça sua autoridade, ponha fim a atos maus e puna os transgressores.

É verdade que por vezes leva muito tempo para que se faça justiça. Certo escritor, já cansado da vida, disse: "A justiça é como um trem que quase sempre está atrasado." Às vezes o trem realmente nunca chega. Os que fazem injustiça talvez tenham tanto poder que as autoridades não conseguem reprimi-los. Ainda assim, o proceder sábio é dominar a si próprio. "Todo o seu espírito é o que o estúpido deixa sair, mas aquele que é sábio o mantém calmo até o último", diz a Bíblia. - Provérbios 29:11.

Vingança - Às Mãos de Quem?

Assim, refrear-nos de atos de vingança nos proporcionará benefícios, e podemos esperar calmamente, sabendo que, se é preciso fazer justiça, Deus cuidará disto no tempo devido. Jeová sabe que a transgressão não punida leva à iniqüidade. (Eclesiastes 8:11) Ele não permitirá que os iníquos empedernidos oprimam a humanidade para sempre. Por este motivo, o apóstolo Paulo nos aconselhou: "Não vos vingueis, amados, mas cedei lugar ao furor; pois está escrito: "A vingança é minha; eu pagarei de volta, diz Jeová."" (Romanos 12:19) Deveras, a Bíblia fala sobre um dia de vingança da parte do Criador. O que será este dia de vingança? E quem sofrerá a vingança de Deus? Consideraremos isto no artigo que segue.

 

 

Crime e punição

Desde os tempos mais primitivos, o homem, feito à imagem do Deus de justiça (Gên 1:26; Sal 37:28; Mal 2:17), possui o atributo da justiça. (Is 58:2; Ro 2:13-15) A primeira sentença proferida por Jeová, para aplicar a justiça, foi dada ao primeiro casal humano e à serpente, que representava o Diabo. A sanção imposta pela desobediência a Deus, que equivalia a uma rebelião contra a soberania do Governante do universo, era a morte. (Gên 2:17) Mais tarde, sabendo que os homens possuíam o atributo da justiça, Caim se deu conta de que eles iriam querer matá-lo para vingar a morte do seu irmão Abel. Mas, Jeová não designou nem autorizou ninguém a executar Caim, reservando a si mesmo a administração da retribuição. Fez isto por cortar a linhagem de Caim no Dilúvio. (Gên 4:14, 15) Cerca de 700 anos antes do Dilúvio, Enoque declarou a vindoura execução, por parte de Deus, daqueles que haviam cometido atos ímpios. - Gên 5:21-24; Ju 14, 15.

Após o Dilúvio. Após o Dilúvio, Deus emitiu leis adicionais, entre elas a primeira autorização dada ao homem de executar a pena por assassínio. (Gên 9:3-6) Mais tarde, Jeová declarou a respeito de Abraão: "Pois fui familiarizar-me com ele, para que ordenasse aos seus filhos e aos da sua casa depois dele que guardassem o caminho de Jeová para fazer a justiça e o juízo." (Gên 18:19) Isto mostra que a sociedade patriarcal estava sob as leis de Deus, com as quais estava familiarizada.

Jeová revelou seu conceito sobre o adultério e a punição dele quando disse a Abimeleque que a bem dizer já estava morto por tomar Sara com a intenção de torná-la sua esposa (embora Abimeleque não soubesse que ela pertencia a Abraão). (Gên 20:2-7) Judá decretou a pena de morte para Tamar, por meretrício. - Gên 38:24.

A Lei de Deus Para Israel. Quando Israel foi organizado como nação, Deus tornou-se seu Rei, Legislador e Juiz. (Is 33:22) Deu-lhe as "Dez Palavras", ou "Dez Mandamentos", como costumam ser chamados, especificando princípios nos quais se baseava o conjunto de mais umas 600 leis. Ele iniciou as "Dez Palavras" com a declaração: "Eu sou Jeová, teu Deus, que te fiz sair da terra do Egito." (Êx 20:2) Isto serve como motivo básico para se obedecer a toda a Lei. A desobediência não somente era uma violação da lei do Chefe do governo, mas também uma ofensa contra o Chefe da religião, seu Deus, e blasfemar a Deus era lesa-majestade, traição.

Sob a Lei, aplicavam-se os mesmos princípios que governaram a sociedade patriarcal. A Lei, porém, era mais detalhada e abrangia todas as esferas das atividades do homem. A Lei inteira, que é apresentada no Pentateuco, era de uma tão elevada norma de moral, que nenhum homem podia tentar seguir a Lei inteira sem achar que ela o condenava como pecador, imperfeito. "O mandamento é santo, e justo, e bom", e "a Lei é espiritual", diz o apóstolo Paulo. "Ela foi acrescentada para tornar manifestas as transgressões." (Ro 7:12, 14; Gál 3:19) Era a inteira lei de Deus para Israel, especificando os princípios e as decisões oficiais de Jeová, não apenas uma simples coletânea dum conjunto de casos que poderiam surgir ou que já haviam surgido.

As sanções sob a Lei, portanto, ajudariam a mostrar que o pecado era "muito mais pecaminoso". (Ro 7:13) A pena de talião, exigindo igual por igual, estabelecia uma norma de justiça exata. A Lei servia para dar paz e tranqüilidade à nação, preservando-a quando Israel obedecia, e protegia a pessoa contra o malfeitor, compensando-a quando sua propriedade era furtada ou destruída.

Os Dez Mandamentos, conforme declarados em Êxodo 20 e Deuteronômio 5, não especificam expressamente a sanção para cada violação. No entanto, essas penalidades são definitivamente declaradas em outros lugares. Para a violação dos primeiros sete mandamentos, a penalidade era a morte. A punição por furto era a restituição e a compensação àquele de quem se furtara a propriedade; para o testemunho falso, a retribuição. O último mandamento, contra a cobiça ou o desejo errado, não acarretava uma sanção aplicável pelos juízes. Transcendia as leis humanas no sentido de fazer todo homem seu próprio policial espiritual, e atingia a raiz, ou fonte, da violação de todos os mandamentos. Se alguém se entregasse ao desejo errado, este finalmente se manifestaria numa violação de um dos outros nove mandamentos.

Os principais crimes sob a Lei. Crimes capitais. Sob a Lei, a pena de morte era aplicada por (1) blasfêmia (Le 24:14, 16, 23); (2) adoração de qualquer outro deus, em vez de a Jeová, idolatria em qualquer forma (Le 20:2; De 13:6, 10, 13-15; 17:2-7; Núm 25:1-9); (3) feitiçaria, espiritismo (Êx 22:18; Le 20:27); (4) profecia falsa (De 13:5; 18:20); (5) violação do sábado (Núm 15:32-36; Êx 31:14; 35:2); (6) assassínio (Núm 35:30, 31); (7) adultério (Le 20:10; De 22:22); (8) mulher que se casava afirmando falsamente ser virgem (De 22:21); (9) relações sexuais com moça noiva (De 22:23-27); (10) incesto (Le 18:6-17, 29; 20:11, 12, 14); (11) sodomia (Le 18:22; 20:13); (12) bestialidade (Le 18:23; 20:15, 16); (13) seqüestro (Êx 21:16; De 24:7); (14) espancar ou vituperar pai ou mãe (Êx 21:15, 17); (15) dar falso testemunho, num caso em que acarretaria a pena de morte para aquele contra quem se testemunhava (De 19:16-21); (16) aproximar-se do tabernáculo sem autorização (Núm 17:13; 18:7).

Em muitos casos, a pena mencionada é "decepamento", usualmente executada por apedrejamento. Além de se ordenar isso para um pecado deliberado, e falatório ultrajante e desrespeitoso contra Jeová (Núm 15:30, 31), mencionam-se muitas outras coisas que acarretavam esta penalidade. Algumas delas são: deixar de ser circuncidado (Gên 17:14; Êx 4:24); deliberada inobservância da Páscoa (Núm 9:13); inobservância do Dia da Expiação (Le 23:29, 30); fabricar ou usar o óleo de santa unção para fins comuns (Êx 30:31-33, 38); consumir sangue (Le 17:10, 14); comer um sacrifício numa condição impura (Le 7:20, 21; 22:3, 4, 9); comer pão levedado durante a Festividade dos Pães Não Fermentados (Êx 12:15, 19); oferecer um sacrifício em qualquer outro lugar, em vez de no tabernáculo (Le 17:8, 9); comer a oferta de participação em comum no terceiro dia depois do dia do sacrifício (Le 19:7, 8); inobservância da purificação (Núm 19:13-20); tocar ilegalmente em coisas sagradas (Núm 4:15, 18, 20); ter relações sexuais com uma mulher durante a menstruação (Le 20:18); comer a gordura dos sacrifícios. - Le 7:25; veja DECEPAMENTO.

Punições impostas pela Lei. As punições sob a Lei dada por Jeová mediante Moisés serviam para manter a terra livre de aviltamento à vista de Deus; aqueles que praticavam coisas detestáveis eram eliminados dentre o povo. Também, as punições dissuadiam do crime e mantinham o respeito pela santidade da vida, pela lei do país, pelo Legislador, Deus, e pelo próximo. E, quando obedecida, a Lei preservava a nação do fracasso econômico e da decadência moral, com suas subseqüentes doenças repugnantes e degeneração física.

Não havia punições bárbaras prescritas pela Lei. Ninguém podia ser punido pelos delitos de outro. Os princípios estavam claramente especificados. Concedia-se certa latitude aos juízes, que consideravam cada caso pelos seus próprios méritos, examinando as circunstâncias, bem como os motivos e as atitudes dos acusados. A justiça tinha de ser aplicada estritamente. (He 2:2) O assassino deliberado de modo algum podia escapar da pena de morte por pagar dinheiro. (Núm 35:31) Quando um homem era homicida acidental, ele podia fugir para uma das cidades de refúgio providas. Confinado dentro dos limites da cidade, ele era obrigado a reconhecer que a vida é sagrada e que mesmo o homicídio acidental não podia ser encarado levianamente, mas exigia uma compensação. Todavia, por trabalhar produtivamente na cidade de refúgio, ele não era um encargo financeiro para a comunidade. - Núm 35:26-28.

As sanções por delitos destinavam-se a aliviar e compensar a vítima dum ladrão ou de alguém que danificou sua propriedade. Se o ladrão não podia pagar a quantia estipulada, ele podia ser vendido como escravo, quer à vítima, quer a outro, reembolsando assim a vítima e obrigando o criminoso a trabalhar para o seu sustento, de modo que o estado não precisava cuidar dele, como quando se pratica o encarceramento. Essas leis eram justas e serviam para reabilitar o criminoso. - Êx 22:1-6.

Sob a Lei, a sentença de morte era executada por apedrejamento. (Le 20:2, 27) Ocasionalmente usava-se a espada, em especial quando era grande o número dos a serem executados. (Êx 32:27; 1Rs 2:25, 31, 32, 34) Quando uma cidade se tornava apóstata, todos os habitantes da cidade deviam ser devotados à destruição pela espada. (De 13:15) Em Êxodo 19:13 alude-se à morte por lança ou possivelmente por flecha. (Veja Núm 25:7, 8.) Menciona-se a decapitação, embora talvez a execução fosse realizada por outros meios e o cadáver decapitado. (2Sa 20:21, 22; 2Rs 10:6-8) Para os crimes mais detestáveis, a Lei prescrevia a queima e pendurar em madeiro. (Le 20:14; 21:9; Jos 7:25; Núm 25:4, 5; De 21:22, 23) Estas sentenças eram executadas só depois de a pessoa primeiro ter sido morta, conforme os textos mencionados claramente indicam.

Cativos de guerra usualmente eram executados pela espada, se eram pessoas devotadas à destruição por ordem de Deus. (1Sa 15:2, 3, 33) Outros, que se rendiam, eram submetidos a trabalhos forçados. (De 20:10, 11) Traduções mais antigas da passagem de 2 Samuel 12:31 dão a entender que Davi havia torturado os habitantes de Rabá de Amom, mas, traduções modernas indicam que ele apenas os submeteu a trabalhos forçados. - Veja NM; CBC; IBB.

Lançar alguém de cima dum penhasco ou lugar alto não era ordenado por lei, mas o Rei Amazias, de Judá, aplicou esta punição a 10.000 homens de Seir. (2Cr 25:12) O povo de Nazaré tentou fazer isso com Jesus. - Lu 4:29.

A justiça estrita era feita vigorar pela pena de talião, ou retaliação, igual por igual, quando os ferimentos tinham sido causados deliberadamente. (De 19:21) Há pelo menos um caso registrado da execução desta penalidade. (Jz 1:6, 7) Mas os juízes tinham de decidir, à base da evidência, se o crime era deliberado ou se era devido a negligência ou acidente, e assim por diante. Uma exceção à pena de talião era a lei que tratava da situação em que uma mulher tentou ajudar o marido numa luta por agarrar os testículos do outro homem. Neste caso, em vez de se destruir os órgãos reprodutivos dela, amputava-se-lhe a mão. (De 25:11, 12) Esta lei demonstra a consideração de Deus para com os órgãos reprodutivos. Também, visto que a mulher pertencia a um marido, esta lei misericordiosamente tomava em consideração o direito do marido, de ter filhos com a esposa.

A Míxena menciona quatro métodos de aplicar a pena de morte: apedrejamento, queima, decapitação e estrangulamento. Mas, estes últimos três métodos nunca foram autorizados, nem ordenados sob a Lei. Os métodos prescritos na Míxena fazem parte das tradições acrescentadas, excedendo os mandamentos de Deus. (Mt 15:3, 9) Um exemplo das práticas bárbaras a que isso levou os judeus é seu método de executar a pena da queima. "A ordenança daqueles que devem ser queimados [é a seguinte]: colocam-no em esterco até os joelhos e põem uma toalha de pano grosso dentro de outra de pano macio, e a enrolam no seu pescoço; uma [testemunha] puxa uma extremidade para si e a outra puxa a outra extremidade para si, até que ele abra a boca; uma mecha [segundo a Guemara (52a) era uma tira de chumbo] é acesa e lançada na sua boca, e ela desce ao seu estômago e queima suas entranhas." -  Sanhedrin (Sinédrio) 7:2; traduzido ao inglês por H. Danby.

Visto que o homem, desde o início, tem sido governado por lei, quer por lei divina, quer pela lei da consciência divinamente implantada, a verdade é que, quanto mais os homens se apegavam à verdadeira adoração, tanto mais razoáveis e humanitárias eram as punições aplicadas pelas suas leis, e quanto mais se afastavam dela, tanto mais se corrompia seu senso de justiça. Isto se torna evidente quando se comparam as leis de nações antigas com as de Israel.

Egípcias. Pouco se sabe sobre as punições aplicadas pelos egípcios. Eles administravam espancamentos (Êx 5:14, 16), afogamento (Êx 1:22), decapitação e subseqüente suspensão numa estaca (Gên 40:19, 22), e a execução pela espada, bem como o encarceramento. - Gên 39:20.

Assírias. As punições sob o Império Assírio eram bem severas. Incluíam a morte, a mutilação (como por cortar orelhas, nariz, lábios, ou por castração), pendurar em estaca, vetar o enterro, golpes com vara, pagamento de certo peso de chumbo, e corvéia real (trabalho forçado). Sob a lei assíria, o assassino era entregue ao parente mais próximo do assassinado, e segundo a sua escolha, este podia matar o assassino ou tomar a sua propriedade. Isto podia levar a vendetas sangrentas, porque havia pouco controle sobre a questão, e não havia cidades de refúgio, como em Israel. A punição do adultério ficava ao critério do marido. Ele podia matar a esposa, mutilá-la, puni-la conforme achasse apropriado, ou deixá-la ir livre. O que fazia à esposa, ele também tinha de fazer ao homem adúltero. Muitos prisioneiros de guerra eram esfolados vivos, cegados, ou se lhes arrancava a língua; eram pendurados em estaca, queimados, e mortos de outra maneira.

Babilônicas. O código de Hamurábi (chamado assim, mas não um código como os juristas o definem hoje), admitidamente baseado em legislação anterior, é uma coleção de decisões ou "registros de casos" em tabuinhas de argila, mais tarde copiadas (talvez em estilo diferente de escrita) numa estela colocada no templo de Marduque em Babilônia. Provavelmente se guardavam cópias em outras cidades. Esta estela, mais tarde levada a Susa por um conquistador, foi descoberta ali em 1902.

Era o código de Hamurábi um "ancestral" da Lei mosaica?

Dessemelhante da Lei mosaica, não procura estabelecer princípios. Antes, seu objetivo parece ser o de ajudar os juízes a decidir certos casos por fornecer-lhes precedentes ou alterar decisões anteriores para mostrar o que se devia fazer em casos futuros. Por exemplo, não especifica uma sanção para o assassínio, porque já havia uma punição reconhecida para este e sem dúvida para outros crimes comuns. Hamurábi não tentava abranger todo o escopo da lei. Cada uma das regras do "código" começa com a fórmula: "Se um homem fizer assim e assim." Visto que se relaciona com casos específicos, em vez de estabelecer princípios, apenas estipula que julgamento se tem de fazer para se enquadrar num certo conjunto simples de fatos. Baseia-se principalmente em leis já existentes, apenas pormenorizando-as para se ajustar a determinadas situações difíceis, comuns na civilização babilônica daquele tempo.

O código de Hamurábi de modo algum mostra ser ancestral da Lei mosaica. Por exemplo, existia no código de Hamurábi uma punição "solidária". Uma das regras declara: "Se [um pedreiro] causou a morte do filho do dono da casa [porque a casa é falha e desmorona], matarão o filho desse pedreiro." A lei de Deus dada por meio de Moisés, ao contrário, declarava: "Os pais não devem ser mortos por causa dos filhos e os filhos não devem ser mortos por causa dos pais." (De 24:16) A penalidade pelo furto de objetos de valor geralmente não era a restituição, como na Lei mosaica, mas a morte. Em certos casos de furto, exigia-se a restituição de até 30 vezes mais. Quando um homem não podia pagar, ele devia ser morto. Nabucodonosor empregou o desmembramento, também usou a punição por fogo, como no caso dos três jovens hebreus, que mandou lançar vivos numa fornalha superaquecida. - Da 2:5; 3:19, 21, 29; Je 29:22.

Persas. Sob Dario, o Medo, Daniel foi sentenciado à cova dos leões, e os que o acusaram falsamente sofreram a retribuição quando eles, seus filhos e suas esposas morreram por este meio. (Da 6:24) Mais tarde, o Rei Artaxerxes, da Pérsia, instruiu Esdras no sentido de que podia executar o julgamento em todo aquele que não cumprisse a lei do Deus de Esdras ou a do rei, "quer para a morte, quer para o desterro, quer para uma multa de dinheiro, quer para o encarceramento". (Esd 7:26) Assuero usou um madeiro de 50 côvados (22 m) de altura para pendurar Hamã. Assuero pendurou também os dois porteiros que haviam conspirado contra a sua vida. - Est 7:9, 10; 2:21-23.

Encontraram-se algumas tabuinhas que contêm as leis determinadas por Dario I, da Pérsia. Nelas, a punição prescrita para o homem que atacou outro com uma arma e o feriu ou o matou era o açoitamento, com 5 até 200 chicotadas. Pendurar a pessoa numa estaca era a punição às vezes administrada. De acordo com escritores gregos sobre leis persas, os delitos contra o estado, o rei, sua família ou sua propriedade usualmente acarretavam a pena de morte. Estas punições às vezes eram horríveis. Não há muita informação sobre crimes comuns, mas a mutilação das mãos ou dos pés, ou cegar a pessoa, parecem ter sido punições comuns.

Outras Nações na Região da Palestina. À parte de Israel, as outras nações dentro e ao redor da Terra da Promessa, usavam encarceramento e laços, mutilação, cegar, matar cativos de guerra pela espada, estripar mulheres grávidas e despedaçar criancinhas contra um muro ou uma pedra para morrer. - Jz 1:7; 16:21; 1Sa 11:1, 2; 2Rs 8:12.

Romanas. Além da execução pela espada, que incluía a decapitação (Mt 14:10), entre as punições mais comuns havia: espancamento; açoitamento com açoite que às vezes tinha ossos ou pedaços pesados de metal amarrados nele, ou tinha ganchos nas extremidades; enforcamento; lançar a pessoa do alto dum rochedo; afogamento; exposição a feras na arena; obrigar à participação em competições gladiatoriais; e queimar. Os prisioneiros muitas vezes eram presos em troncos (At 16:24) ou acorrentados a um soldado de guarda. (At 12:6; 28:20) A Lex Valeria e a Lex Porcia isentavam os cidadãos romanos do açoitamento - a Lex Valeria, quando o cidadão apelava para o povo; a Lex Porcia, sem este apelo.

Gregas. As punições gregas em muitos casos eram as mesmas que as impostas pelos romanos. Jogar a pessoa dum penhasco ou dentro duma caverna funda, espancamento até a morte, afogamento, envenenamento e a morte pela espada eram punições infligidas aos criminosos.

Para mais detalhes, veja crimes e punições sob os respectivos nomes.

Justiça

As palavras hebraicas tsé·dheq e tsedha·qáh, bem como a grega di·kai·o·sý·ne, têm o sentido de "direiteza", "retidão", indicando um padrão ou norma que determina o que é reto. (Veja JUÍZO (JUSTIÇA). A palavra "justiça" é freqüentemente usada com referência a um juiz, ou a um julgamento, o que dá ao termo um sentido um tanto jurídico. (Sal 35:24; 72:2; 96:13; Is 11:4; Re 19:11) Na Lei mosaica, em Levítico 19:36, tsé·dheq é usado quatro vezes com referência a transações comerciais: "Deveis mostrar ter balanças exatas ["justas", Al; BJ; CBC ], pesos exatos, um efa exato e um him exato."

Deus Estabelece o Padrão. O perito em grego Kenneth S. Wuest diz: "Deus é o padrão objetivo que determina o sentido de dikaios [justo], e ao mesmo tempo mantém o sentido constante e imutável, visto que Ele é o Imutável." Ele cita então Cremer como dizendo: "A justiça no sentido bíblico é a condição de retidão, cujo padrão é Deus, determinado segundo a norma divina, que se mostra num comportamento em harmonia com Deus, e que acima de tudo tem que ver com sua relação com Deus, e com a andança perante Ele. Ela é isso, e é chamada de dikaiousune theou (justiça de Deus) (Rom. 3:21, 1:17), a justiça conforme é de Deus, e que é de valor perante Ele, justiça divina, veja Efé. 4:24; com a justiça assim definida, o evangelho (Rom. 1:17) vem ao mundo de nações, que estava habituado a aplicar uma norma diferente." -  Studies in the Vocabulary of the Greek New Testament (Estudos do Vocabulário do Novo Testamento Grego), 1946, p. 37.

Lucas mostra em que sentido alguém é justo, ao dizer a respeito do sacerdote Zacarias e da sua esposa Elisabete (os pais de João, o Batizador): "Ambos eram justos diante de Deus por andarem inculpes de acordo com todos os mandamentos e exigências legais de Jeová." (Lu 1:6) A justiça é medida pela conformidade com a vontade de Deus e Suas ordens. Suas ordens específicas talvez variem de uma época para outra, e de pessoa para pessoa - a sua ordem dada a Noé, de construir uma arca, nunca foi repetida, nem se aplica aos cristãos a sua ordem a respeito da circuncisão. Não obstante, os padrões pessoais de Deus, sua personalidade, e o que ele  é, conforme expressos nas suas palavras e no seu proceder, permanecem constantes e assim fornecem um padrão perfeito, "como rocha" em firmeza e estabilidade, para se medir a conduta de todas as suas criaturas. - De 32:4; Jó 34:10; Sal 92:15; Ez 18:25-31; 33:17-20.

Bondade e Justiça. O apóstolo Paulo parece fazer uma distinção entre bondade e justiça ao dizer, quando fala sobre a morte sacrificial de Cristo: "Pois, dificilmente morrerá alguém por um justo; deveras, por um homem bom, talvez, alguém ainda se atreva a morrer. Mas Deus recomenda a nós o seu próprio amor, por Cristo ter morrido por nós enquanto éramos ainda pecadores." (Ro 5:7, 8) Um homem pode ser classificado como "justo" quando cumpre com suas obrigações, quando é eqüitativo, imparcial, honesto, não culpado de transgressão ou imoralidade, portanto, alguém que é conhecido pela sua conduta íntegra e sua retidão. A declaração de Paulo, porém, dá a entender uma certa superioridade do homem "bom". Para ser "bom", ele não podia, naturalmente, ser injusto ; no entanto, há outras qualidades que o distinguem do homem que é primariamente conhecido pela sua justiça. O uso do termo grego mostra que aquele que se destaca ou distingue pela bondade é benévolo (disposto a fazer o bem ou a beneficiar outros) e benfeitor (expressando esta bondade por ações). Não se preocupa apenas em fazer o que a justiça exige, mas vai além disso, sendo motivado pela consideração sadia para com os outros, e pelo desejo de beneficiá-los e ajudá-los. - Veja Mt 12:35; 20:10-15; Lu 6:9, 33, 35, 36; Jo 7:12; At 14:17; Ro 12:20, 21; 1Te 5:15.

Evidentemente, Paulo está mostrando assim que, embora o homem conhecido como "justo" talvez granjeie o respeito ou mesmo a admiração dos outros, ele talvez não toque o coração deles tão fortemente, a ponto de impelir alguém a morrer por ele. No entanto, o homem que se destaca pela sua bondade, que é cordial, prestimoso, atencioso, misericordioso, benfeitor, granjeia afeição; e sua bondade talvez toque suficientemente o coração a ponto de que, por tal homem, alguém talvez esteja disposto a morrer.

Pode-se notar que, nas Escrituras, aquilo que é "bom" é contrastado com o que é "ruim" (Jo 5:29; Ro 9:11; 2Co 5:10), "iníquo" (Mt 5:45; Ro 12:9), e, naturalmente, "mau" (Ro 16:19; 1Pe 3:11; 3Jo 11). O "justo", por outro lado, é contrastado com o "pecador" (o injusto). (Mr 2:17; Lu 15:7) Assim como alguém pode ser pecador (por deixar de satisfazer normas justas), e ainda assim não necessariamente ser classificado como "ruim", "iníquo" ou "mau", do mesmo modo também, alguém pode ser "justo" e mesmo assim não necessariamente ser chamado de "bom", ou classificado como tal, no sentido já descrito.

José de Arimatéia era conhecido como "bom e justo", estes termos, naturalmente, sendo sempre usados em sentido relativo quando aplicados a humanos imperfeitos. (Lu 23:50; compare isso com Mt 19:16, 17; Mr 10:17, 18; veja BONDADE [A Bondade de Jeová].) Os mandamentos da lei de Deus para Israel eram "santos [por procederem de Deus], e justos [perfeitos em justiça], e bons [proveitosos em todos os sentidos para os que os cumprissem]". - Ro 7:12; compare isso com Ef 5:9.

Jeová, o Justo. As palavras hebraicas tsé·dheq e tsedha·qáh, e a grega di·kai·o·sý·ne, ocorrem com freqüência com referência à justeza dos modos de agir de Deus: como Soberano (Jó 37:23; Sal 71:19; 89:14), na administração e execução de julgamento e justiça (Sal 9:8; 85:11; Is 26:9; 2Co 3:9), na punição do seu povo professo (Is 10:22), na vindicação de si mesmo em julgamento (Sal 51:4; Ro 3:4, 5) e na vindicação do seu povo (Miq 7:9).

O próprio Jeová é chamado de "o lugar de permanência da justiça". (Je 50:7) Portanto, ele é o Justo, e toda a justiça da parte das suas criaturas resulta da sua relação com ele. Jeová se apega à sua própria norma de justiça sem alteração. Portanto, suas criaturas podem ter a máxima confiança nele. A seu respeito está escrito: "Justiça e juízo são o lugar estabelecido do teu trono." - Sal 89:14.

Justo ao exercer misericórdia. A justiça, o

juízo, a santidade e a pureza de Jeová são tais, que ele não pode tolerar nenhum pecado. (Sal 5:4; Is 6:3, 5; Hab 1:13; 1Pe 1:15) Por conseguinte, ele não podia perdoar os pecados da humanidade sem satisfazer a justiça - na realidade, sem uma base legal. Mas, por meio da sua benignidade imerecida, ele fez este arranjo justo por fornecer seu Filho como oferta sacrificial, como propiciação ou cobertura dos pecados. Desta maneira, ele pode de modo justo exercer misericórdia para com os pecadores que aceitam este arranjo. Paulo expressa este assunto da seguinte maneira: "Mas agora, à parte da lei, foi manifestada a justiça de Deus, . . . sim, a justiça de Deus por intermédio da fé em Jesus Cristo . . . Pois todos pecaram e não atingem a glória de Deus, e é como dádiva gratuita que estão sendo declarados justos pela benignidade imerecida dele, por intermédio do livramento pelo resgate pago por Cristo Jesus. . . . para que [Deus] fosse justo, mesmo ao declarar justo o homem [inerentemente pecaminoso] que tem fé em Jesus." - Ro 3:21-26; veja DECLARAR JUSTO.

Busque a Justiça de Deus. Jesus admoestou seus ouvintes: "Persisti, pois, em buscar primeiro o reino e a Sua justiça [i.e., a de Deus], e todas estas outras coisas vos serão acrescentadas." (Mt 6:33) É preciso persistir em buscar o Reino; é preciso desejar este governo e ser leal a ele. Mas, não se deve esquecer que se trata do Reino de Deus; é necessário harmonizar-se com a vontade de Deus, com a norma de Deus quanto ao que é conduta certa e errada, e é preciso continuamente "transformar a mente", para que todas as facetas da vida estejam em harmonia com a justiça de Deus. (Ro 12:2) A pessoa tem de se "revestir da nova personalidade, que foi criada segundo a vontade de Deus, em verdadeira justiça e lealdade". - Ef 4:23, 24.

Os judeus pensavam que estavam a salvo e que receberiam o Reino de Deus por buscarem estabelecer a sua própria justiça, mas não se sujeitaram à justiça de Deus. (Ro 10:1-3) Foi por isso que Jesus disse aos seus discípulos: "Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não abundar mais do que a dos escribas e fariseus, de modo algum entrareis no reino dos céus." Esses homens tinham uma forma de justiça na sua obediência a certos requisitos da Lei e às suas acrescentadas tradições. Mas, na realidade, haviam invalidado a palavra de Deus por causa das suas tradições, e rejeitaram a Cristo, o caminho provido por Deus, por meio de quem poderiam ter obtido a verdadeira justiça. - Mt 5:17-20; 15:3-9; Ro 10:4.

Justiça não por meio das próprias obras. Por conseguinte, é evidente que homens imperfeitos nunca poderiam alcançar a verdadeira justiça - nunca poderiam estar à altura da justiça de Deus - quer pela dependência de obras da Lei mosaica, quer por suas próprias obras de auto-justiça. (Ro 3:10; 9:30-32; Gál 2:21; 3:21; Tit 3:5) Os homens que Deus chamava de "justos" eram aqueles que tinham exercido fé em Deus e que não confiavam nas suas próprias obras, mas apoiavam essa fé por obras em harmonia com as normas justas dele. - Gên 15:6; Ro 4:3-9; Tg 2:18-24.

A Lei era justa. Isto não quer dizer que a Lei dada por meio de Moisés não atingia as normas de justiça de Deus. Ela as atingia, sim. O apóstolo argumenta: "Por conseguinte, a lei, da sua parte, é santa, e o mandamento é santo, e justo, e bom." (Ro 7:12; De 4:8) Servia ao propósito de Deus, de tornar manifestas as transgressões e de ser tutor para levar os judeus sinceros a Cristo, tendo ainda uma sombra das boas coisas vindouras. (Gál 3:19, 24; He 10:1) Mas não podia trazer verdadeira e plena justiça aos que estavam sob ela. Todos eram pecadores; não podiam guardar a Lei de modo perfeito; e seu sumo sacerdote não podia eliminar os pecados deles com os seus sacrifícios e serviços. Portanto, somente pela aceitação da provisão que Deus fez de Seu Filho podiam alcançar a justiça. (Ro 8:3, 4; He 7:18-28) Aqueles que aceitavam Cristo eram declarados justos, não como algo merecido, mas como dádiva, e Cristo tornava-se para eles "sabedoria de Deus, também justiça e santificação, e livramento por meio de resgate". Por conseguinte, a verdadeira justiça só pode vir por meio de Cristo. Isto enaltece a Jeová, atribuindo a ele, não ao homem ou a obras deste, o mérito de ser a Fonte de toda a justiça, "para que fosse assim como está escrito: "Quem se jactar, jacte-se em Jeová"". - 1Co 1:30, 31; Ro 5:17.

Benefícios da Justiça. Deus ama os justos e se importa com eles. Davi escreveu: "Eu era moço, também fiquei velho, e, no entanto, não vi nenhum justo completamente abandonado, nem a sua descendência procurando pão." (Sal 37:25) Salomão disse: "Jeová não fará que a alma do justo passe fome, mas repelirá a avidez dos iníquos." (Pr 10:3) Deus há de julgar a terra habitada em justiça, por Jesus Cristo, e ele criará "novos céus e uma nova terra", em que há de morar a justiça. (At 17:31; 2Pe 3:13) A derradeira posse da terra é prometida aos justos; os iníquos hão de ser eliminados da terra como "resgate" pelos justos, pois, enquanto os iníquos estão no controle, os justos não podem ter paz. E as possessões dos iníquos serão dos justos, conforme diz o provérbio: "A riqueza do pecador é algo entesourado para o justo." - Pr 13:22; 21:18.

Aquele que persevera em justiça tem assegurado desde já, e para todo o tempo vindouro, a boa vontade de Deus e a aprovação de homens de coração reto, porque "a recordação do justo está para ser abençoada [e isso "por tempo indefinido"], mas o próprio nome dos iníquos apodrecerá". - Pr 10:7; Sal 112:6.

Respeite e Acate os Justos. O proceder sábio é respeitar aqueles que Jeová considera justos, e aceitar o conselho e a repreensão deles, o que resultará em bem para os que os aceitam. Davi recebeu repreensão de Jeová por meio de homens justos, servos e profetas de Deus, e ele disse: "Se o justo me surrasse, seria benevolência; e se me repreendesse, seria óleo sobre a cabeça, que minha cabeça não desejaria recusar." - Sal 141:5.

"A Couraça da Justiça." Visto que a Bíblia nos diz: "Mais do que qualquer outra coisa a ser guardada, resguarda teu coração, pois dele procedem as fontes da vida", os cristãos precisam revestir-se da "couraça da justiça". (Pr 4:23; Ef 6:14) Para que o coração não se torne mau, é essencial que se siga a justiça de Deus, visto que o coração do homem decaído, pecaminoso, é traiçoeiro e desesperado. (Je 17:9) O coração precisa de muita disciplina e treinamento. O cristão só pode assegurar-se deste proceder por se apegar de perto às Escrituras, as quais, conforme diz o apóstolo Paulo, são "proveitosas para ensinar, para repreender, para endireitar as coisas, para disciplinar em justiça, a fim de que o homem de Deus seja plenamente competente, completamente equipado para toda boa obra". Ele deve aceitar com gratidão a disciplina recebida de homens justos, que fazem tal uso da Palavra de Deus. - 2Ti 3:16, 17.